Dia Mundial de Luta Contra a Desertificação
A preocupação com a degradação ambiental não é de atual. Há muito tempo a natureza emite sinais de alerta, mas são poucos que se sensibilizam e protestam. Este será o
tema do nosso Boletim Informativo neste dia em que as pessoas "lembram" do meio ambiente.
Vamos reproduzir um texto publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 1904. Não, não está errado. O texto foi escrito no ano de 1904 mesmo. Este grito de alerta, que completa 110 anos, foi escrito por Euclydes da Cunha, autor de “Os Sertões”.
“Temos sido um agente geológico
nefasto e um elemento de
antagonismo terrivelmente
bárbaro da própria natureza que nos rodeia”.
Euclydes da Cunha
nefasto e um elemento de
antagonismo terrivelmente
bárbaro da própria natureza que nos rodeia”.
Euclydes da Cunha
A Terra torna-se cada vez mais desabrigada.
“Quem saltar em quaisquer das estações da central no
trecho paulista, a partir de Cachoeira, entra quase de improviso em
lugares que lhe não recordam mais as bordas pitorescas do Paraíba.
A terra, uma terra antiga cortada pela estrada real
três vezes secular que ia do Rio a São Paulo vai tornando-se cada vez
mais desabrigada e pobre.
Tumultuando em colinas desnudas de flancos entorroados: afundando em pequenos vales sem encantos, onde se rebalçam paus fechados de tábuas, desatando-se, planas, arenosas e limpas - nada mais revela da opulência incomparável que por três séculos, da expedição de Glimmer aos dias da independência.
Fez do vale do grande rio, alteado num socalço de cordilheiras e racamado de matas exuberando floração ridente, o cenário predileto da nossa história.
E por mais curioso que seja o viajante, ao romper aquelas veredas em torcicolos, vai sendo invadido pela tristeza daqueles ermos de soldados.
E, deparando de momento em momento as cruzes sucessivas que a espaços aparecem às margens do caminho, tem a impressão de calçar um antigo chão de batalhas esterilizado e revolto pela marcha dos exércitos.
E uma sugestão empolgante.
Ressaltam a cada passo expressivos traços de grandesas decaídas.
Os morros escalvados por onde trepa teimosamente uma flora tolhica de cafezais de 80 anos, ralos e ressequidos, mal revelando os alinhamentos primitivos, cintados ainda pela faixa pardo-avermelhada dos carreadores tortuosos, por onde subiam, outrora, as turmas dos escravos, tendo ainda pelos topos, à ourela de velho.
Valos divisórios, extensos renques de bambuzais, e ao v¡és das encostas, salteadas, branqueando nas macegas, as vivendas humildes por ali esparsas, a esmo, dão quase um traço bíblico às paisagens.
Sem mais a vestidura protetora das matas, destruídas na faixa brutal das derribadas, desagregam-se, escoriadas dos enxurros, solapadas pelas torrentes, tombando aos pedaços nas corridas da terra depois das chuvas torrenciais, e expõem agora, nos barrancos a prumo, em acervos de blocos; a rígida ossamenta de pedra, desvendada, ou alevantam-se despidas, e estéreis, revestidas de restolhos pardos, no horizonte monótono, que abreviam entre as encostas íngrimes…”.
O texto de Euclydes da Cunha continua atual e serve como legenda para as fotos. Foto 1 Estação Ecológica da Juréia-Itatins; Foto 2 Jazida de argila nas escarpas do Parque Estadual da Serra do Mar e Foto 3 Invasões nas margens do rodoanel em SP.
"O que se vê, a nossa volta, são colinas desnudas, vivendas humildes por ali esparsas ou um chão de batalhas esterilizado e revolto pela marcha dos exércitos".
PS.: Assim como estabelecemos um dia por ano para "homenagear" o meio ambiente, dedicamos o dia 17 de junho na "luta" contra a desertificação.